Capítulo · Pesquisa e Ações em Saúde Pública - Ed. XXVI

Pandemia E Genocídio Cultural: Os Desafios Da Atenção À Saúde Indígena Durante A Covid-19 No Brasil

Resumo

INTRODUÇÃO: A pandemia de COVID-19 revelou desigualdades históricas e estruturais nos sistemas de saúde, especialmente no contexto da atenção à saúde indígena no Brasil. O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (Sasi-SUS), embora tenha sido criado para respeitar as especificidades socioculturais da população indígena, mostrou-se insuficiente frente à tal emergência sanitária. As falhas na articulação entre o Sasi-SUS e os demais níveis da atenção à saúde dificultaram o cuidado integral, resultando não apenas em elevada mortalidade, mas também em perdas simbólicas e culturais irreparáveis. OBJETIVO: Discutir os desafios da atenção primária à saúde indígena durante a pandemia de COVID-19 a partir de uma revisão narrativa da literatura. MÉTODOS: Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, com levantamento bibliográfico considerando o período entre 2020 e 2025 nas bases de dados da SciELO, PePSIC, BVS e Brazilian Journals. Foram utilizados os seguintes descritores: “saúde indígena” OR “atenção primária indígena” OR “atenção básica indígena” AND “COVID-19” OR “coronavírus”. Após triagem por leitura de títulos e resumos, foram selecionadas nove obras (sete artigos científicos e dois capítulos de livros) que abordavam a articulação da atenção primária no Sasi-SUS, impactos da pandemia e perda de saberes coletivos. RESULTADOS: Os estudos analisados apontam que a pandemia acentuou a desarticulação do Sasi-SUS com os demais dispositivos de saúde, implicando na baixa testagem, demora na entrega de equipamentos de proteção individual, além da ausência de comunicação em línguas indígenas e a exclusão de indígenas urbanos dos dados e políticas de vacinação. Tais falhas contribuíram para a subnotificação de casos e agravamento dos quadros de saúde dessa população. A mortalidade entre indígenas superou em até 50% a da população geral em várias faixas etárias, especialmente entre idosos com mais de 80 anos de idade. Esses óbitos não apenas sobrecarregaram as comunidades, como também resultaram na perda de líderes espirituais