Introdução: A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp) corresponde a aproximadamente metade dos casos de insuficiência cardíaca e está associada a elevada morbimortalidade, com escassez histórica de terapias modificadoras de prognóstico. Os inibidores do co-transportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2), inicialmente desenvolvidos como agentes antidiabéticos, demonstraram benefícios clínicos consistentes na ICFEp, independentemente da presença de diabetes. Esses efeitos resultam de mecanismos além do controle glicêmico, incluindo ações hemodinâmicas, metabólicas, renais, anti-inflamatórias e cardiovasculares. Objetivo: Sintetizar as evidências da literatura sobre os mecanismos de ação dos inibidores de SGLT2 na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, com foco nos efeitos além do controle glicêmico e em seus impactos clínicos e funcionais. Métodos: Revisão narrativa da literatura, com busca nas bases PubMed, SciELO e Cochrane, incluindo estudos publicados entre 2015 e 2025 relacionados à ICFEp e aos inibidores de SGLT2. Resultados: Os iSGLT2 promovem excreção de sódio e água, reduzindo o volume intravascular e a pressão arterial sem aumento reflexo da frequência cardíaca. Embora a natriurese seja transitória, ocorre contração sustentada do volume e redução da congestão. No rim, ativam o feedback túbulo-glomerular, reduzindo a hiperfiltração e conferindo proteção renal. No miocárdio da ICFEp, há ineficiência bioenergética caracterizada por menor flexibilidade metabólica, disfunção mitocondrial e maior consumo de oxigênio para produção de ATP, contribuindo para disfunção diastólica e intolerância ao exercício. Os iSGLT2 melhoram esse perfil ao otimizar o metabolismo energético cardíaco. A inflamação crônica de baixo grau e a fibrose miocárdica são centrais na rigidez ventricular e na perda de reserva funcional, sendo amplificadas por comorbidades como obesidade, diabetes e hipertensão. Os iSGLT2 exercem efeitos anti-inflamatórios e antifibróticos independentes da glicemia, reduzind