Os análogos de GLP-1, originalmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade com comorbidades, como a semaglutida e a liraglutida, têm sido amplamente utilizados de forma off-label para fins estéticos, principalmente com o objetivo de promover emagrecimento em indivíduos eutróficos. A crescente popularidade desses fármacos entre pessoas sem indicação clínica formal tem gerado preocupação, tanto pelos riscos à saúde quanto pelas implicações éticas e sociais. Este capítulo explora os mecanismos fisiológicos dos análogos de GLP-1, destacando sua ação no eixo intestino-cérebro, com efeito anorexígeno mediado pela modulação do apetite, esvaziamento gástrico e controle glicêmico. Embora eficazes na perda ponderal, seu uso indiscriminado está associado a eventos adversos significativos, como náuseas, vômitos, diarreia, desidratação e, em casos mais graves, pancreatite e distúrbios da motilidade intestinal. Além disso, estudos sugerem que, em indivíduos sem sobrepeso, a perda de peso pode ocorrer principalmente à custa de massa magra e água corporal, comprometendo a força muscular, o metabolismo basal e a composição corporal saudável. Do ponto de vista metabólico e psicológico, o uso estético pode desencadear ou agravar distúrbios alimentares, promover imagem corporal distorcida e gerar dependência do fármaco para manutenção do peso. O efeito rebote, com recuperação rápida do peso corporal após a suspensão do medicamento, é frequente e pode ser ainda mais intenso em pacientes sem obesidade previamente diagnosticada. Conclui-se que o uso off-label de análogos de GLP-1 com finalidade estética carece de respaldo científico robusto e representa risco à saúde física e mental. A prescrição desses fármacos deve ser criteriosamente individualizada, restrita a indicações clínicas bem definidas, considerando-se o equilíbrio entre riscos e benefícios, especialmente no contexto da crescente medicalização do corpo e da estética.